Depois de um dia dedicado ao tema “Valorização e cuidado para quem ensina”, a 3ª edição do Festival Encontro com o Porvir terminou com um dos momentos mais aguardados da programação: a cerimônia de entrega do Prêmio Professor Porvir. Em sua terceira edição, a premiação recebeu 656 projetos de todo o Brasil e registrou 40.885 votos na etapa de votação popular.
No palco, a entrega dos troféus (simbolicamente representados por um azulejo guardando no traço do dente‑de‑leão a promessa de que cada gesto de ensinar se espalha longe), ganhou homenagem artística com o espetáculo “Mundo da Educação em Cena”, criado e encenado por Beatriz Alves, Bruno Silvério e Nayara Fauzir.

A peça percorreu, com humor e sensibilidade, as histórias dos 10 projetos vencedores, transformando em cena perguntas nascidas em cada um dos projetos: curiosidades de crianças, memórias de comunidades, debates sobre identidade, democracia, ciência, tecnologia e cuidado.
Ao final do teatro, os educadores subiram novamente ao palco para falar sobre o reconhecimento. Entre agradecimentos, lágrimas e dedicatórias, as falas reforçaram uma ideia comum a todos os projetos: quando a escola escuta seus estudantes e reconhece quem a faz, a aprendizagem ganha sentido.
Educação infantil: a ciência que nasce de uma pergunta
A professora Katiele Moreira dos Santos, da Escola Municipal Professora Helena Reis, em Varginha (MG), venceu na categoria Educação infantil com o projeto “Se tem sol, por que está frio”?

A prática nasceu de uma pergunta espontânea das crianças e se transformou em uma investigação sobre clima, céu, Terra e sistema solar. Em vez de entregar respostas prontas, Katiele registrou as hipóteses da turma e conduziu experiências inspiradas em abordagens como Reggio Emilia e STEAM. As crianças construíram maquetes, visitaram o planetário de Varginha, criaram um livro e mobilizaram uma campanha de doação de roupas de frio.
“Estou extremamente feliz, muito agradecida por todo o carinho e por toda a dedicação. Foi maravilhoso”, afirmou. “Eu amo o que eu faço e ser reconhecida dessa forma me deixa mais motivada, mais animada. Vou voltar para Varginha com muito gás, com muita vontade de fazer a diferença.”
Anos iniciais: democracia na prática
Na Categoria anos iniciais do ensino fundamental, o vencedor foi Felipe Briguente Coelho Alves, da Escola Municipal Maria Auxiliadora Guarçoni Benini Bonato, em Rosário da Limeira (MG), com o Programa de Iniciação à Democracia, o PROID,

A partir de conversas de recreio sobre política, o professor criou o PROID, uma experiência na qual estudantes do 5º ano formaram partidos, participaram de eleições, defenderam ideias, elaboraram projetos de lei e simularam o funcionamento dos Três Poderes. A proposta aproximou as crianças do debate democrático e mostrou que política também se aprende pela escuta, pela convivência e pela participação.
“Quero reafirmar o meu compromisso, que é fé nas crianças, em todas as crianças do Brasil”, disse Felipe. “Esse prêmio já é um prêmio coletivo das nossas crianças, das crianças que eu represento no meu município e de todas as crianças que são o futuro do nosso país. A gente pode, sim, acreditar que o Brasil do amanhã pode ser transformado pelas mãozinhas das nossas crianças de hoje.”
Anos finais: tecnologia com raízes no território
O professor Emerson Felipe da Silva, da Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental e Médio Cacique Domingos Barbosa dos Santos, em Rio Tinto (PB), venceu a Categoria anos finais do ensino fundamental com o projeto “Corporeidade, território, ancestralidade e ecossaberes”.

Na Terra Indígena Potiguara de Monte-Mor, a proposta articulou saberes tradicionais, escuta ativa, tecnologia e práticas STEAM. Antes de trabalhar robótica e ciências, os estudantes ouviram anciãos e lideranças da comunidade, registraram memórias em um acervo audiovisual, valorizaram o ritual Toré, calcularam áreas de erosão e planejaram um viveiro de mudas nativas.
“Todo o vocabulário é escasso para agradecer ao Porvir por esse momento único, esse momento inefável na vida de cada um daqueles que aqui estão”, afirmou Emerson. “Mas gostaria de registrar que esse prêmio é totalmente dedicado aos professores da Escola Estadual Indígena Cacique Domingos Barbosa dos Santos, ao projeto de protagonismo Potiguara e a toda a nação Potiguara. Esse projeto é todo de vocês.”
Ensino médio: acolhimento como condição para aprender
A professora Bianca Marques Costa Nogueira, da Escola Estadual Sônia Maria Alexandre Pereira, em São José dos Campos (SP), foi vencedora na Categoria ensino médio com o projeto “Grupo de Vivências LGBTQIAPN+”.

Criado em uma escola pública do interior paulista, o grupo promove encontros semanais abertos a estudantes, professores e funcionários. As rodas de conversa se tornaram espaço de escuta, confiança e expressão para jovens que, muitas vezes, não encontravam na escola um ambiente seguro para falar sobre suas experiências.
“Gostaria de agradecer todo o carinho, toda a atenção do pessoal do Porvir e de todos que estão aqui”, disse Bianca. “Agradeço também a valorização de um projeto muito importante para mim, muito importante para os meus alunos, e esse olhar respeitoso para uma comunidade que sofre diariamente.”
Língua inglesa: aprender outro idioma sem abandonar as raízes
Na Categoria projeto de língua inglesa, patrocinada pela Wings, a vencedora foi Sinara Adriana Soares, do Colégio Estadual do Campo Professor Eugênio de Almeida, em São Mateus do Sul (PR), com o projeto “Saberes e sabores do campo”.

Na prática, o inglês se aproximou das memórias familiares e da cultura local. Estudantes ouviram histórias de seus avós, resgataram relatos em ucraniano e polonês, produziram textos, cartões-postais e apresentações bilíngues. O idioma deixou de ser associado apenas a lugares distantes e passou a funcionar como ponte entre tradição, identidade e mundo.
“Não é um trabalho ser professora quando a gente faz o que gosta. É uma diversão e é um amor que nós colocamos acima de tudo”, afirmou Sinara. “Nós sabemos que não está fácil, mas estamos firmes. Se nós estamos aqui, é porque representamos um Brasil que acredita na educação.”
Educação financeira: matemática contra apostas online
O professor José Carlos da Silva Júnior, da Escola Técnica Estadual Miguel Batista, no Recife (PE), venceu na categoria Educação financeira com o projeto “Para onde vai o meu dinheiro?”.

A proposta nasceu diante do avanço dos jogos de azar entre adolescentes. Na prática, estudantes criaram empresas fictícias, com CNPJ, folha de pagamento, capital próprio, moedas, campanhas e decisões financeiras. Quando um aluno “apostou” e perdeu todo o dinheiro da empresa simulada, o erro virou oportunidade para discutir probabilidade, consumo, planejamento e riscos reais das apostas online.
José Carlos não pôde estar presente porque estava em viagem de volta ao Brasil, e foi representado pela professora Tainá Pereira. “Em nome do professor José Carlos, quero agradecer ao Porvir por esse reconhecimento. Ele é um professor que faz muitas ações dentro da escola”, afirmou. “Fazer educação já é um processo muito difícil. E, quando a gente tem um amigo do lado que consegue compartilhar os momentos, sejam eles difíceis ou bons, o caminho fica bem mais leve. Obrigada, Zé, por ter me colocado aqui para receber esse prêmio por ele.”
Educação antirracista: Carolina Maria de Jesus dentro e fora da escola
A professora Shirlei Rodrigues Pelizzaro, da Escola Municipal Professora Cynthia Cliquet Luciano, em São Sebastião (SP), venceu na Categoria educação antirracista com um projeto intitulado “Carolinas”, inspirado na obra de Carolina Maria de Jesus.
Com estudantes do 9º ano, Shirlei levou a leitura de Quarto de Despejo para além da sala de aula. Os jovens entrevistaram mulheres da comunidade, como catadoras, faxineiras e trabalhadoras domésticas, e aproximaram literatura, memória, território e desigualdades ainda presentes no cotidiano.

“Quero começar agradecendo à equipe do Porvir por todo o cuidado, toda a sensibilidade”, disse Shirlei. “Eu até brinquei que achei que a gente estaria aqui como se fosse o Oscar, mas vocês são muito mais criativos que a equipe do Oscar.”
Para ela, o prêmio pertence aos estudantes. “Esse prêmio vai para os meus alunos, que realmente foram os grandes protagonistas. Os professores têm as ideias, porém os alunos têm que abraçar, têm que sonhar, têm que acreditar. E eles acreditaram”, afirmou. A professora também dedicou o reconhecimento a Carolina Maria de Jesus e às mulheres que inspiraram sua trajetória. “Esse prêmio vai para Carolina Maria de Jesus, que está viva entre nós; para as minhas avós, mulheres sábias, que sempre sonharam em estudar e nunca conseguiram; para a minha mãe, que foi empregada doméstica aos 7 anos de idade; e para todas as mulheres que acreditam que podem transformar esse país.”
Educação socioemocional: arte, identidade e mundo digital
O professor Otávio Neves, da Escola Municipal George Chalmers, em Nova Lima (MG), venceu na Categoria educação socioemocional com o projeto “Eu digital: tecnologias e identidades”.

A prática surgiu diante de um diagnóstico preocupante: mais de 100 estudantes da escola enfrentavam crises de ansiedade. A partir desse cenário, o projeto utilizou arte, fotografia, vídeo e mídias digitais para ajudar adolescentes a se reconhecerem, reconstruírem suas identidades e transformarem dor em criação, silêncio em expressão e pertencimento em cuidado.
“Gratidão por toda a equipe, desde o início do processo, por criar essa ação de valorização da educação e dos profissionais da educação”, afirmou Otávio. “Tenho certeza de que vocês são uma mola propulsora para o nosso propósito, para o progresso da educação, que é o progresso do mundo e da humanidade.”
Tecnologia: estudantes ribeirinhos como jovens cientistas
A professora Thaini Maiara Pereira Alves, da Escola Municipal São João, em Manaus (AM), foi vencedora na Categoria tecnologia com o projeto “Observatório da Estiagem: Ciência Cidadã na Amazônia”.

Com estudantes do 6º ano, a professora transformou a observação do clima e do território em uma experiência de ciência cidadã. A turma construiu pluviômetros artesanais com garrafas PET, mediu o nível do Rio Negro, monitorou poços, registrou dados com instrumentos simples e observou bioindicadores, como comportamento de animais e aspectos da vegetação.
“Vocês não têm noção do que esse reconhecimento significa, não só para mim, mas para os estudantes, para a escola e para a comunidade”, afirmou Thaini. “É muito gratificante. Esse reconhecimento e esse carinho significam muito para a gente. Isso abre caminhos que vamos trilhar com força e garra. É uma injeção de força para a gente continuar.”
Votação popular: memória, identidade e orgulho comunitário
O professor Jurani Oliveira Clementino, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Corina de Azevedo Barbosa, em Ingá (PB), venceu na Categoria votação popular, com 30,6% dos votos, o equivalente a 12,5 mil votos, pelo projeto “Do bairro Senzala à escola: memórias, identidade e igualdade étnico-racial”.

A investigação começou com uma pergunta: qual era a origem do nome do bairro Senzala? Como o próprio professor não sabia a resposta, ele e seus estudantes foram pesquisar documentos, ouvir moradores mais velhos e reconstruir a história da comunidade. O que antes era motivo de estigma passou a ser compreendido como memória, pertencimento e afirmação de identidade.
“Como venho da votação popular, quero agradecer aos 12,5 mil votos recebidos”, disse Jurani. “Dedico esse presente, esse prêmio, a eles, mas também à minha equipe, à minha família e à turminha de dona Fátima, que encarou essa eleição como uma decisão do Big Brother Brasil”, brincou.
Ao falar sobre o projeto, o professor destacou a importância de disputar narrativas e revisitar memórias apagadas. “Esse trabalho me emociona desde o primeiro momento, porque a memória diz muito sobre os vencedores e sobre quanto os vencidos pagaram o preço por isso”, afirmou. “É para vocês, é para meus eleitores, é para minha família, é para a memória desse país ser repensada.”

